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  • José Armindo

Quem Cuida dos Cuidadores? A Psicologia do Cuidar.

Portugal tem a taxa mais elevada da Europa de cuidados informais, ou seja, cuidados realizados a título não profissional. Os dados do último Inquérito Nacional de Saúde indicam que 12.5% da população com idade igual ou superior a 15 anos providencia assistência informal a alguém com problemas de saúde e/ou idade avançada. Este suporte é, na sua maioria, realizado a familiares (85%) e consideravelmente mais providenciado por mulheres (61%).


As exigências de ser cuidador informal são enumeras, tanto a nível físico como emocional e social. Estima-se que o impacto prejudicial na saúde mental dos cuidadores seja 20% superior aos não cuidadores, em especial quando falamos de cuidados intensivos (ou seja, mais de 20h por semana).


Assim, a questão que procuramos responder hoje é: como pode ajudar a Psicologia a inverter esta tendência?



Cuidar dos cuidadores


Um cuidador é alguém que ajuda outra pessoa na execução de tarefas. Este cuidado é associado a casos de doença, deficiência física ou mental, idade avançada, entre outros.

Podemos dividir o tipo de cuidado prestado em duas categorias: formal e informal.


Os cuidadores formais são os que exercem as suas funções de acordo com uma qualificação profissional e são remunerados pelos cuidados prestados. Os cuidadores informais são pessoas que, sem contrato formal ou remuneração, prestam auxílio nas mais variadas tarefas. São geralmente elementos da família, amigos ou comunidade.

Frequentemente, o trabalho de cuidar é realizado em parceria.


Existem certas tarefas que exigem competências profissionais e/ou são de alta complexidade; por isso, para garantir a sua qualidade, devem ser realizadas por um profissional. Contudo, devido a limitações económicas e/ou sociais, o suporte informal é cada vez mais prevalente.


Portugal publicou recentemente o estatuto do cuidador informal (Lei no 100/2019 de 6 de setembro, 2019), onde se encontram regulados os direitos e deveres tanto do cuidador como da pessoa cuidada. Estes direitos e deveres referem-se, por exemplo, a apoios monetários e informativos.


Este estatuto, embora procure capacitar os cuidadores em várias áreas, podendo melhorar a saúde mental, não a protege de modo direto. Cabe, neste momento, aos cuidadores procurarem ajuda quando, muitas vezes, não estão informados das repercussões psicológicas e/ou dos benefícios de procurar ajuda diferenciada.



Impactos psicológicos de cuidar


Os impactos psicológicos de cuidar são inúmeros, tanto positivos como negativos.


Embora os mais frequentemente falados sejam os negativos, a investigação mais recente na área indica que os cuidadores sentem que o ato de cuidar dá sentido às suas vidas e fá-los sentir bem com eles mesmos, permite que adquiram novas competências, fortalece a coesão social e promove resiliência.


No entanto, estes benefícios estão dependentes de muitos outros fatores. A pressão financeira, o desgastante constante no caso de existir apenas um cuidador, muitas vezes sem apoio de cuidadores formais, e o afastamento da vida social são alguns dos aspetos que contribuem para que o impacto seja negativo. Além disso, a dificuldade de cuidar aumenta quando são prestados cuidados a pessoas que não apresentam melhorias, cuja progressão da doença é imprevisível ou degenerativa, bem como no caso das pessoas que carecem de cuidados continuamente.


Devidos a estes aspetos desgastantes, ser cuidador associa-se a uma variedade de repercussões a nível psicológico. Manifestações de ansiedade, medo, raiva, frustração, culpa, depressão, tristeza, luto, … a lista de impactos ao nível da saúde mental continua.

Com o tempo, estas mudanças psicológicas podem manifestar-se em alterações físicas.


Cuidadores frequentemente colocam a sua saúde em segundo plano. Isto pode levar a que comportamentos preventivos, como atividade física ou consultas médicas, sejam adiados. Em alternativa podem ser adotados hábitos nocivos, como má nutrição ou padrões de sono desajustados.


Se os primeiros sinais de alerta são psicológicos, seguindo-se os fisiológicos, intervir na primeira fase para evitar a escala é fulcral.



Apoio psicológico ao cuidador


Se cuidar pode ter impactos positivos e negativos no cuidador, então a Psicologia presta o seu contributo para potenciar os primeiros e diminuir os segundos.


A Psicologia presta o seu contributo no desenvolvimento de ferramentas para que os cuidadores invistam no autocuidado e estejam capacitados para lidar com os impactos emocionais já referidos.


Pode ser um recurso essencial para gerir sensações de ressentimento, que podem facilmente materializar-se em culpa; para trabalhar a culpa relacionada com o não conseguir fazer mais ou por ser necessário colocar outras áreas da vida em segundo plano; para procurar estratégias que colmatem o isolamento associado às adaptações de vida realizadas para que haja disponibilidade para cuidar contribui para o desenvolvimento de estados depressivos; para gerir processos de perda e luto, incluindo no que diz respeito ao luto antecipatório.


Além disso, a Psicologia pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias adaptativas saudáveis como forma de prevenção. Pode, por exemplo:


- Facilitar a reestruturação familiar em torno do ato de cuidar. Uma rede de suporte que permita rotatividade, seja através da família ou da comunidade, pode ser essencial. Por vezes, este suporte não existe. Outras vezes, o cuidador principal não sabe como comunicar a sua necessidade de ajuda.


- Auxiliar no diálogo com a equipa médica. Ser capaz de abordar os cuidadores formais de modo a esclarecer dúvidas e obter ferramentas para cuidar é fundamental. O conhecimento informado acerca da condição de saúde é chave para aumentar a capacidade de cuidar.


- Aumentar a autoeficácia. A desconstrução de pensamentos relacionados com a capacidade de cuidar, como a necessidade de ser perfeito, permite ao cuidador sentir que está a fazer tudo o que pode ser feito.


- Delinear objetivos realistas. O cuidador informal pode prestar cuidados em apenas algumas áreas da vida ou em todas. Em particular no segundo caso, é fundamental criar uma rotina, estabelecendo prioridades, para que o tempo de autocuidado não seja esquecido.


Nunca é demais referir que as expetativas sociais e familiares de cuidar são elevadas. Já dizia Caetano Veloso, “quando a gente gosta é claro que a gente cuida”. Cuidadores informais, frequentemente, não se identificam como cuidadores, achando que estão apenas a fazer o que é esperado deles. A consulta de Psicologia transforma-se, assim, num espaço seguro de empatia e tolerância quanto aos problemas emocionais e comportamentais que o cuidador experiencia.


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Rute Amorim - Psicóloga, Psicoterapeuta


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