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  • José Armindo

A PSICOLOGIA NAS DOENÇAS CRÓNICAS

Os mais recentes dados relativos à prevalência da doença crónica em Portugal foram publicados este ano. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, no ano de 2020, 43.9% da população portuguesa, com idade igual ou superior a 16 anos, refere ter uma doença crónica ou problema de saúde prolongado. Quase metade da população!


Verifica-se que estas condições afetam mais mulheres do que homens (47% para 40.4%). Além disso, manifestam-se mais em pessoas com 65 ou mais anos - 71.4%, versus 34.1% na restante população.


Já no que diz respeito às doenças crónicas mais frequentes em Portugal, os dados recolhidos pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge demonstram que:


- Nos homens, as doenças crónicas mais frequentes foram hipertensão (25,1%), colesterol elevado (23,7%), alergia (11,4%), diabetes (10,4%), dor crónica (7,4%) e artrose (7,3%):


- Nas mulheres, as doenças crónicas mais apontadas foram hipertensão (26,1%), colesterol elevado (25,7%), artrose (20,6%), alergia (18,1%), depressão (15,2%) e dor crónica (13,5%).


A tríade: hipertensão, colesterol elevado e diabetes


A hipertensão arterial, ou simplesmente hipertensão, é a doença crónica mais prevalente em Portugal, tanto em homens como mulheres. Esta condição caracteriza-se por pressão sanguínea excessiva na parede das artérias. Embora possa ser causada por outras doenças, as principais causas de hipertensão são associadas a stress, excesso de peso, ingestão excessiva de sal, açúcar ou de álcool, tabaco e colesterol elevado.


O nosso corpo produz dois tipos de colesterol: HDL e LDL. Estes são conhecidos, respetivamente, por colesterol "bom" e colesterol "mau". Quando há um desequilíbrio entre eles, e o LDL está num nível superior ao recomendado ou o HDL abaixo do valor padrão, considera-se que o colesterol está elevado. Os elevados valores de colesterol no sangue são um fator de risco para doenças cardiovasculares e cerebrovasculares. Além disso, o risco de o desenvolver é acrescido quando associado a hipertensão ou diabetes.


A diabetes mellitus, mais conhecida por diabetes, resulta de um desequilíbrio na ação da insulina. Quando a insulina produzida não é suficiente, ou quando esta não consegue ser utilizada normalmente, a concentração de glicemia (açúcar no sangue) fica acima dos valores normais. Cerca de 90% dos casos são classificados como diabetes tipo 2. Ao contrário da diabetes tipo 1, em que a administração diária da insulina é necessária para a sobrevivência, na diabetes tipo 2 pode não ser necessária ação medicamentosa. Existem várias condições de saúde que constituem fatores de risco para o desenvolvimento de diabetes, entre as quais a hipertensão e o colesterol elevado.


Estas três doenças são fatores de risco umas das outras; mas relacionam-se para além disso. A sua prevenção e tratamento é muito semelhante. Se excluirmos os fatores genéticos, que não podemos controlar, e a potencial necessidade de terapia medicamentosa, a resposta é a mesma: alterações ao estilo de vida. Uma dieta pouco saudável e o consumo excessivo de álcool, o tabagismo e o stress elevado, o excesso de peso e a falta de exercício físico são fatores controláveis e que aumentam o risco de ter valores alterados. Deste modo, a intervenção inicia-se com modificações comportamentais.


A Psicologia pode auxiliar na aquisição destes comportamentos. A intervenção cognitivo-comportamental permite:


1- facilitar a integração dos hábitos de vida no dia-a-dia, promovendo a adesão à terapêutica,


2- desenvolver estratégias para lidar com situações desafiantes e gerir o stress e


3- trabalhar os pensamentos associados à doença crónica.


Nota: Se quiser ler sobre como a Psicologia pode ajudar a perder peso, leia o nosso artigo noutro post deste blog.


Quando a dor fala mais alto: dor crónica e artrose


Por vezes, a dor física prolonga-se temporalmente; meses, ou até anos, para além da situação que a originou. Assim, deixamos de falar da dor como sintoma e passamos a encará-la como doença.


A dor crónica pode resultar de inúmeras circunstâncias - nomeadamente, de outras doenças crónicas que abordamos neste artigo, como artrose ou diabetes. O primeiro sintoma de dor crónica é evidente: a dor. Mas além do sofrimento que provoca, pode conduzir a alterações do sistema imunitário, provocar distúrbios do sono e perturbações do apetite, problemas intestinais, entre outros.


Na categoria das doenças reumáticas, a osteoartrose é a mais comum. Esta doença degenerativa, também conhecida por artrose, traduz-se no desgaste da cartilagem - o tecido que reveste as articulações. Devido ao seu desgaste continuado, concretiza-se numa limitação de movimentos e provoca incapacidade progressiva. Para a prevenção da artrose recomenda-se a prática de exercício físico, a perda de peso (quando aplicável - uma vez que o excesso de peso implica sobrecarga das articulações) e a redução de atividades de esforço.


Embora nenhuma destas doenças crónicas tenha cura, o seu tratamento pode envolver profissionais de muitas áreas e potencia a qualidade de vida. Contudo, o empenho dos pacientes é indispensável. Além da adesão à terapêutica medicamentosa e às sessões de fisioterapia, é fundamental que as restantes medidas do plano de tratamento (por exemplo, a inibição de certas atividades) sejam cumpridas.


A Psicologia pode desempenhar um papel importante na adaptação a estas doenças. Ambas são progressivamente debilitantes e implicam aceitação das limitações impostas. Além disso, envolvem gestão da dor e adesão ao plano de tratamento. Através da intervenção psicológica é possível trabalhar as cognições associadas à doença e aos seus impactos, bem como facilitar a integração de novos hábitos de saúde.


Não são só espirros, não: alergia


Uma reação alérgica ocorre quando o sistema imunitário responde de forma exagerada ao contacto com substâncias externas. Estas substâncias, denominadas alergénios, são inócuas para a maioria das pessoas. O tratamento inicia-se com medidas ambientais, isto é, retirando as interações com as substâncias que provocam a reação. Podem também ser utilizados medicamentos e imunoterapia, se evitar o contacto não for possível ou o suficiente.


O contributo da Psicologia na adaptação à alergia relaciona-se, primeiramente, com a privação. O impacto psicossocial pode ser elevado, dependendo da alergia em questão; por exemplo, uma alergia alimentar pode significar alterações consideráveis ao nível da vida escolar, social e financeira. Perante estas mudanças pode revelar-se útil a consulta psicológica, como modo de facilitar a adaptação saudável a estas limitações.


Num mar de doenças físicas: depressão


Neste top 6 das doenças crónicas, a depressão surge como a única doença que não é do foro fisiológico. A depressão é uma perturbação de humor, caraterizada por humor deprimido e/ou perda de interesse ou prazer.


No entanto, quando falamos de depressão não falamos, geralmente, de uma doença crónica. Existe a possibilidade de a depressão entrar neste top 6 devido ao modo como o estudo foi efetuado: baseou-se no autorrelato dos participantes e, pela sua possível duração prolongada, estes podem vê-la com crónica. O termo mais correto para nos referirmos a uma forma mais prolongada de depressão será transtorno depressivo persistente, ou distimia.


A depressão tem um impacto significativo na vida da pessoa e, não podendo ser prevenida, hábitos de vida que promovam a saúde mental têm impacto ao nível da resiliência psicológica.


A depressão é, claro, uma das principais áreas de intervenção da Psicologia. Mas além das vantagens da psicoterapia, a Psicologia também pode ser uma ferramenta útil na promoção de estilos de vida saudáveis. Pode, igualmente, ser fundamental quando a depressão é consequência de, por exemplo, doenças físicas.


Saúde física e saúde mental: um ciclo


Existe um aspeto pouco abordado até ao momento neste artigo, mas incrivelmente importante: o impacto destas doenças ao nível da saúde mental, e vice-versa.


Por um lado, doenças do foro fisiológico surgem, frequentemente, associadas a desafios ao nível psicológico. Uma doença crónica modifica de modo permanente a vida dos pacientes.


Alguns exemplos práticos da sua exigência demonstram-se na alteração das rotinas diárias, relações sociais desgastadas, impacto negativo no contexto laboral e que pode levar ao abandono do posto de trabalho. Além disso, a doença crónica provoca frequentemente distúrbios do sono, depressão e ansiedade. As repercussões da doença crónica podem ir além do próprio e manifestar-se também na sua rede de suporte, atingido a família e os amigos.


Por outro lado, situações do foro psicológico e emocional podem exacerbar sintomas. Além do desconforto físico aumentado, sintomas exacerbados podem levar os pacientes a recorrer mais frequentemente a consultas/urgências. Têm, também, impacto ao nível da adesão aos planos de tratamento e manutenção do autocuidado, o que dificulta a gestão da doença e aumenta os seus riscos e sequelas.


Não é demais referir que a intervenção psicológica fornece um espaço seguro e que valida as experiências associadas à doença crónica, nem sempre compreendidas pela sociedade.


Se procura ajuda na adaptação à sua doença crónica, tanto ao nível das mudanças que tem de fazer como ao nível dos seus impactos psicológicos, ou se pretende fazer alterações na sua vida para a prevenir, marque consulta connosco.


Pode ver aqui a minha página e, se desejar marcar consulta, basta ligar para o 962 399 605 ou clicar no botão de marcação de consultas.






Rute Amorim, Junho 2022

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